Apresentação
Este é o conto que fecha a antologia Dois Dedos de Poesia para Abrir o Apetite.
Dois Dedos de Poesia
Eu pensei muito em como começar essa história. Minha primeira reação foi o óbvio: começar pelo começo. Mas então, onde ela começa? Pensei em começar pela minha infância, mas não quero contar toda a minha vida, não é pertinente, nem, muito menos, interessante. Cogitei, então, começar a contar de quando tudo deu errado. Mas eu precisava contar daquela festa, e, mais que isso, precisava contar como era minha vida antes.
Eu a vi de longe e sorri. Sei que isso pode parecer coisa de bobo apaixonado, mas garanto-lhes que, hoje, não é. Hoje digo com sinceridade. Ela era linda. E, naquele vestido claro, brilhando em dourado com as cores da festa, ó poeta, ela estava estonteante. Aproximei-me devagar e sussurrei em seu ouvido:
-Sei que já devem ter te dito isso, mas você é linda demais para esse lugar. Dança comigo?
Ela se levantou e caminhamos lentamente até a pista de dança sob a música lenta.
-O que uma garota tão maravilhosa como você está fazendo sozinho num lugar como esse?
-Estava esperando meu marido – ela riu.
-Ah, então existe um motivo.
-Sempre existe.
-Qual some?
-Daniela. Você está tentando flertar comigo, Charlie?
-Eu tenho uma sugestão para você, princesa – respondi.
Girei-a na pista e abracei-a apertado.
-Por que você não esquece seu marido por essa noite e divirta-se comigo como tenho certeza que você não se diverte em anos.
-Meu marido não vai gostar dessa ideia.
-Ele não precisa saber de nada.
-Sua esposa também não vai gostar disso.
-Ah, não sei, talvez ela até goste – ri maliciosamente e levei um tapa delicado no braço.
Dançamos essa música com muitas risadas e fomos pegar bebidas para nós.
-Não acredito! Carlos? Carlos De Albuquerque, é você?
Olhei para trás e vi aquela garota sorrindo para mim.
-Você se lembra de mim? Sou Aurora Monteiro, nós estudamos juntos no colegial!
-Aurora! – sorri para a garota que não achava ter visto alguma vez na vida – Essa é minha esposa – apresentei-lhe Daniela – Como você está?
-Ah, estou ótima! Estou trabalhando numa editora agora, por isso estou aqui. E você? Tá em Hollywood, não é? Eu adoro seus filmes! Você ainda escreve poesia?
-Não, eu desisti disso pelo cinema. É o que deu retorno, não é?
-Bem, caso você mude de ideia, estou a sua disposição, eu adoraria publicar um livro seu, seria uma honra – ela me entregou um cartão de telefone.
Sorri para a garota simpática e Daniela convidou-a para sentar conosco. Conversamos durante o resto da festa, Aurora falava muito, confessou que teve uma queda por mim no colegial e toda sua vida. A alegria da garota nos fez rir e amenizou o clima que pesava em minha mente. O que realmente importa é que consegui me distrair.
Porque isso era o que realmente importava. Acontece que eu tinha voltado para São José dos Campos porque minha mãe teve um derrame. Esses dias poderiam ser os últimos dela. Mas Daniela achava que todo aquele clima mórbido do hospital estava fazendo-me mal, portanto me convenceu a ir nessa grande festa que o prefeito de São Paulo deu para o sobrinho dele que havia acabo de lançar um livro.
A princípio não queria ir para a festa. Mas acabou resultando no melhor. E Daniela estava certa, eu precisava me distrair, esquecer um pouco dos problemas. Às vezes, isso é bom. No carro, a caminho de casa, minha esposa começou a falar:
-Você vai ligar para ela?
Demorei para entender ao que ela se referia.
-Não, meu bem, você sabe que eu larguei a poesia.
-Esse era seu sonho, Charlie.
-Era um sonho infantil. Eu abandonei os sonhos infantis, lembra? E, além do mais, o Steven estava falando sobre um contrato que parece que vai ser minha grande chance, Danny. Eu acho que essa pode ser minha vez.
Poucos dias depois, minha mãe faleceu. Seu funeral foi no cemitério da cidade e fazia sol. Era um dia quente e o terno pesava. Entre todas as coisas, se tem uma que eu me lembro bem foi que eu não chorei. Nenhuma lágrima. Olhei horas a fio atônito para aquele rosto pálido, segurei aquelas mãos gélidas e nada, não consegui processar reação.
-Você vai embora quando?
-Amanhã.
-Não vai nem sequer passar um tempo aqui conosco?
-Não posso, Ceci, eu tenho um grande contrato em vista e preciso voltar logo pra casa.
O sorriso amarelo da minha irmã e seus olhos vermelhos doíam talvez até mais que a cena de minha mãe deitada entre aquelas mórbidas flores.
-Como sempre, não é, Carlos? Vai nos abandonar novamente. Quer saber, vá, vá logo, eu não quero mais ver essa sua cara aqui.
Minha irmã já estava com quarenta e dois anos e três filhos. Lembro que a pequena Luísa chorava no colo da mãe, não por compreender que acabara de perder a avó, mas por causa daquele calor infernal. Os outros dois jovens rapazes brincavam pelo cemitério, inocentes e ingênuos demais para chorar.
O dia seguinte ao enterro foi inteiro de viagem. Chegamos tarde da noite em nossa casa em Hollywood. Estávamos tentando começar uma família, eu e Daniela, achávamos que era melhor começarmos logo, antes de sermos velhos demais para termos filhos. Mas essa noite ela dormiu sem nem mesmo desfazer as malas.
No meio da madrugada, liguei o carro e para a Jennifer. Chegando lá, fizemos amor durante as altas horas da madrugada.
-O que há com você hoje, querido?
-Minha mãe morreu, Jenny.
-Ah, tadinho! Vem cá, deixa eu cuidar de você – e me beijava novamente e fazíamos amor novamente.
Eu amava Daniela. Pelo menos, tinha certeza que a amava. Justificava meu relacionamento com Jennifer como puramente carnal. Enganava a mim mesmo dizendo que amava Daniela, mas que não estava apaixonado por ela mais. E que isso era normal. Sendo normal ou não, nunca deveria tê-la traído. Mas acreditava que não tinha problema, era só carnal. Eu era cliente de Jennifer havia tempos, e com ela o relacionamento era estritamente de sexo. Portanto, não estava exatamente traindo Daniela, estava?
Agora, algo estava diferente em mim. Eu percebi durante essa noite com Jennifer. Eu não era mais aquele jovem roteirista com dinheiro e uma chama insaciável no peito. Eu estava triste, só não queria admitir. Disse para mim mesmo que estava cansado e voltei para casa. Durante alguns dias, vivi minha semivida nesse estado, tentando me enganar. Mas aí aconteceu algo que não havia mais volta. Acredito que esse foi o ponto onde o conflito de minha história realmente começou.
-Charlie, eu estou grávida.
Por um instante, minha felicidade foi indescritível.
-Não, Charlie, não – ela estava chorando – Charlie, não é seu filho.
Vê, qualquer homem ficaria chateado com isso. E o meu choque durou muito tempo. Sentei na cama sem reação e fiquei encarando uma lasca da parede, pensando lentamente em tudo que vivi e como chegara naquele ponto. Ela sentou delicadamente no meu lado e segurou minhas mãos. Não sei porque, mas, por uma fração de segundo, lembrei-me das mãos gélidas de minha mãe.
-Charlie, eu precisava te contar isso já faz um tempo. Eu conheci um rapaz. Ele estava trabalhando comigo no último filme que eu fiz. Desculpe, Charlie, de verdade, eu ainda amo você. Mas…
Eu não tenho certeza se ela parou de falar ou eu simplesmente que parei de ouvir. Sei que em pouco tempo eu a abraçava e ela chorava em meu ombro. Isso é realmente absurdo, como eu ainda a abracei, apesar de tudo. Depois de um tempo, acabei descobrindo o que eu tinha que fazer.
-Vou ligar para o Lawrence, pedir pra ele organizar os papéis do divórcio.
No fim das contas, ela acabou levando quase tudo. Por causa da minha relação com a Jennifer, não pude acusá-la de adultério. Para me manter, aluguei um quarto num hotel perto do estúdio só por uns dias, até eu conseguir achar um lugar legal pra comprar.
É claro que isso já iria acontecer de qualquer jeito. Mas não posso negar que eu acelerei o processo, depois da morte de minha mãe, e de minha sobrevivência passível, não ia demorar muito pra ela se cansar de mim. Mas não me sinto culpado, talvez tenha sido para o melhor.
E conforme eu a vida seguia, um tristeza profunda me abateu. E, por mais que eu tentasse, era difícil evitar o tom romântico em meus textos. Talvez tenha sido por isso que eles pararam de aceitar minhas ideias. Ou isso só contribuiu, não poderia afirmar. Mas o que de fato eu posso afirmar é que, em uma semana, eu levei minha terceira história para o escritório de Steven e tive uma conversa que me marcou.
-Eu garanto que leremos e lhe dou uma resposta, Charlie.
Eu pesei bem minhas próximas palavras.
-Steve, eu queria falar com você sobre o meu contrato. A gente esteve conversando sobre aquela série, e eu trabalhei com a ideia que você me deu, e acho que pode ficar muito bom!
Ele suspirou fundo antes de me responder.
-Ok, Charlie, precisamos conversar – ele falava pausadamente, como dando uma notícia trágica – Eu sei que o seu contrato está no fim, mas eu não acho que o Estúdio vai renovar o contrato com você. Vê, nós estamos caminhando para um caminho e você parece caminhar para outro. Não é que nós não gostamos do que você faz, ou que não queremos você aqui, mas os interesses do Estúdio e os seus não estão mais em sintonia, agora são divergentes.
-Mas, Steven, nós já estávamos combinando o contrato. Nós até discutimos a validade e o preço!
-Eu sinto muito, Charlie. Você foi um dos nossos melhores roteiristas, mas são ordens superiores. Eu sinto muito, de verdade.
E eu engoli toda essa merda. Naquela época eu fiquei com muita raiva. Mas agora eu entendo que, de certa forma, isso tudo foi culpa minha.
O que aconteceu depois disso foi que o bar começou a parecer mais atraente que a tela em branco do meu computador. E a minha carteira começou a parecer cada vez mais magra. E toda noite eu morria novamente, apenas para renascer no dia seguinte.
O que eu achei sacanagem foi que as meus “amigos” mostraram o porquê de eu usar essas aspas. Eu sei que estava quase sempre de porre e o álcool ajudava a encobrir a tristeza que minha vida havia tomado. Mas eu nunca deixei de respeitar ninguém, e foi muito radical como, do nada, todos que eu conheciam fingiram que eu era um desconhecido.
Mas eu cansei dessa vida deprimente. Eu estava deprimente, mas eu não podia deixar isso me abater. Eu precisava de algo a que me prender, de alguém para abraçar, de uma esperança no mundo.
Foi então que, numa noite de bebedeira, o copo de uísque me trouxe uma lembrança há muito esquecido. Uma bela poesia de um filme há muito esquecido, recitada por uma antiga amiga.
-Sempre teremos Paris, meu amor – ela me dissera.
Foi por causa dessa memória meio perdida no longo corredor do tempo que eu vendi meu carro, que era um dos poucos bens de valor que eu ainda possuía, e comprei a passagem.
Agora Paris, meu amigo, ah, Paris é lindo. Apesar das oportunidades, nunca havia ido. Mas possivelmente a melhor coisa dentre tantos desastres que circundaram minha vida desde que minha mãe morreu. Conhecer aquele cidade, tanto brilho, tanta luz, ah, aquilo era poesia líquida, poesia gasosa, poesia concreta, poesia, na sua forma mais inebriante possível. Porque poesia faz isso conosco, nos deixa inebriados, bêbados, estonteados, atordoados. Fascinados. Assim como Paris. Vive la France.
Nós combinamos de nos encontrar no topo da torre Eiffel, nada mais romântico. E lá estava ela, linda, sob o céu azul do fim de tarde parisiano.
-Oi, Dolores – disse, e acenei.
-Oi, Charlie – ela respondeu, com um sorriso caloroso – Você está horrível – ela usava um tom de compaixão.
E eu deveria estar. Com meu traje que eu usava havia alguns dias, a barba por fazer, o cabelo já ficando comprido. Cumprimentei-a com um beijo, toquei levemente seus lábios com o meu e sorri.
-Eu senti sua falta.
-Eu também – ela sorriu – Eu vi todos os seus filmes.
Eu ri. Contei-lhe toda minha história. E, no final, estava chorando. Foi curioso eu não ter chorado pela morte de minha mãe, pela traição de Daniela, pela demissão, pela falta de dinheiro, de amigos, mas, de repente, tudo isso veio à tona e vê-la ali, sob aquele céu, naquela paisagem, eu não suportei, e as lágrimas caíram como chuva e a tempestade pintava meu rosto como um quadro de arte moderna.
-Eu não sabia mais para onde ir, Dolores.
-Não, querido, venha cá, não tem problema – e me abraçava – Eu sempre estive aqui para você, certo?
Eu parei de chorar aproximadamente quando as badaladas do fim do dia anunciaram o pôr-do-sol. Sequei as lágrimas para poder ver o espetáculo.
-Isso é uma das coisas mais lindas que eu já vi.
Só voltamos a conversar quando a torre se acendeu.
-Dolores, eu senti sua falta. Eu sei que durante todo esse tempo, nós fingimos nunca termos nada, mas desde que eu fui te ver pela última vez, naquele aeroporto, meu coração bate diferente a cada vez que penso em você. Eu…
-Charlie – ela sorriu, triste – Você sempre foi um poeta, não é? Eu sinto muito, Charlie, eu devia ter falado antes. Eu estou casada, Charlie. E com dois filhos.
A princípio, eu não sabia o que pensar. Minha relação com Dolores, desde que nos conhecemos em seu consultório lá em São José dos Campos, foi uma relação com um quê romântico. E mesmo depois de eu parar de vê-la, nós continuamos nos comunicando e nosso sentimento cresceu. Eu imaginei que, nessa hora de desespero, ela poderia ser minha salvação.
-Parabéns, Dolores! Nossa, filhos… – ri, afinal – Eu não fazia ideia.
-Charlie, você foi meu paciente por muito tempo e eu tenho que admitir que nossa relação foi além da psicologia. Mas naquela época você era casado. E, nessa, eu sou. Eu sinto sua falta, Charlie, mas eu não vou poder te abrigar aqui, te oferecer comida, abrigo e amor. Eu sinto muito.
E foi por esse motivo que eu voltei ao Brasil na manhã seguinte. Meu carro deu um dinheiro razoavelmente bom, eu conseguiria passar alguns dias em um Hotel, mas esse não era meu plano. Eu queria ver minha querida e adorada irmã, e, se possível, pedir socorro.
Assim, desembarquei em Guarulhos, e peguei o primeiro ônibus para São José dos Campos. Mas acontece que tinha um bar próximo a rodoviária e a poesia estava em falta. A realidade nua e crua era demais para eu aguentar, então, decidi parar apenas para uma bebida, apenas um segundo. E, o problema disso, é que segundos são relativos a um referencial. E eu saí do bar às duas da manhã, porque fecharam.
Cheguei, de táxi, na casa de Cecília e toquei a campainha.
-Olá, mamãe! – gritei, completamente bêbado, quando minha irmã e o bebê de colo abriram a porta.
Eu corri para abraçar minha irmã mais velha, mas, tentando encostar o mínimo possível em mim, ela tenta fugir e empurrar-me ao mesmo tempo. Eu fedia álcool, e não tinha noção da fala.
-Carlos, eu não posso deixar você entrar nesse estado. O que as crianças vão pensar?!
-Eu não sei, mamãe, mas eu preciso dormir.
Então, minha querida irmã ligou para o táxi e ofereceu algum dinheiro para eu me manter.
Mas o táxi me largou no Terminal Central, me deixando completamente perdido no meio da madrugada. O ar gelado acabou me deixando sóbrio, mas já estava começando a dor de cabeça e eu não fazia ideia de onde haveriam hotéis próximos.
Comecei a andar na beira do banhado. Eu não tinha mais esperança. Estava completamente perdido. Completamente só. Estava prestes a desistir. Quando eu vi. Sentei em um banco por não aguentar ficar em pé. E então eu entendi tudo.
Ali, naquela cantinho de mundo, vi o sol nascer. E, sentado naquele banco, vendo o surgimento da poesia, eu compreendi. Eu estava livre. Livre, no âmbito da palavra. Eu estava livre porque, como Janis Joplin, não tinha mais anda a perder. Eu perdera o emprego, a mulher, a mãe, meus amigos, minha confidente, até mesmo minha família. Eu não tinha mais nada. Absolutamente nada. E, mais que qualquer outra pessoa no mundo, eu era livre.
E foi nesse êxtase de liberdade que uma lágrima de alegria escorreu pelo meu rosto, brilhando com o sol nascente. Lindo, imponente, glorioso, o sol se impunha sobre as montanhas distancias e nascia lindo como nunca. Não sei o que me levou, então, a sacar minha carteira.
Abri-a. As fotos já haviam sido tiradas de lá. A maioria dos bilhetes, lembranças, recordações. Havia um dinheiro sujo dentro da carteira, e um pequeno cartão. Peguei o cartão instintivamente e guardei a carteira. Olhei por uns minutos para o cartão e para o nascer do sol e peguei meu celular.
-Alô, Aurora?
Informações
Este texto é um trecho de material já publicado.
Dois Dedos de Poesia para Abrir o Apetite é uma antologia de contos, minha primeira publicação 100% autoral, de 2019. São contos diversos dos meus primórdios nas veredas da Literatura, todos muito embebidos em poesia e brasilidade.
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