Apresentação
Ela mesma como fantasma de si" , de Gabriela Queiroz, é uma imersão poética e surrealista no labirinto da memória. Acompanhamos Elara em seu retorno a uma melancólica casa de campo , um lugar onde o passado, o luto e a ausência se tornam presenças quase físicas. Entre a névoa e a estranha onipresença de um caracol , a narrativa nos guia por uma jornada psicológica sobre o peso do que nos abandona e daquilo que nos recusamos a deixar ir. Confira abaixo a entrevista completa com a autora sobre a obra.
Gabriela Queiroz fala sobre seu romance Ela mesma como fantasma de si
1.Ela mesma como fantasma de si” é uma obra densa e cheia de camadas. Se você pudesse resumir o coração do seu livro em uma ideia central para um novo leitor, qual seria? Essencialmente, sobre o que trata a jornada de Elara?
O livro explora uma jornada física e, ao mesmo tempo, introspectiva de Elara, que retorna à antiga casa de campo de seu pai Enrico, para enfrentar o luto pela morte de sua melhor amiga, Marina (uma morte trágica e difícil de aceitar), e o trauma do abandono de sua mãe. A narrativa se desenrola em um espaço de intermúndio, onde as percepções de Elara colapsam em nuances surreais e o que é material se confunde com o etéreo. Se eu puder resumir a essência do romance em uma ideia central, é a de conformação do ser. A jornada de Elara é um processo de aceitação da própria natureza e da necessidade de deixar ir a dor e a culpa, porque é uma imersão no surreal que a leva à aceitação da realidade que ela se encontra. No romance existe um plot que explica essas conexões e o objetivo da protagonista naquela casa. Metaforicamente, a experiência de Elara é como tentar montar um quebra-cabeça com as peças da sua vida. No início as peças (memórias e traumas) estão confusas. O caracol, símbolo importante na narrativa, age como um manual de instruções, levando Elara por caminhos inesperados. Ela descobre que, para montar o quadro final, ela precisa aceitar que algumas peças estão faltando (a mãe e Marina), e que a peça central que ela procurava desesperadamente não era outra pessoa, mas uma verdade oculta sobre si mesma, transformando o quadro do luto em aceitação e uma nova forma de existência.
2. A atmosfera do livro é onírica, quase gótica por vezes, e exige uma entrega sensorial do leitor. Para que tipo de leitor você acha que esta história ressoaria mais profundamente? Para quem você imaginou esta narrativa?
O livro se apoia fortemente na sinestesia e na ambiguidade metafísica para conduzir a jornada da protagonista, então acredito que o leitor ideal é aquele que não busca uma narrativa linear ou extremamente lógica, mas sim uma experiência de imersão emocional. Eu imaginei a narrativa para aqueles que apreciam a “emanação semirradiante” da vida, conforme cita Virginia Woolf na epígrafe do livro. Acredito que leitores interessados em narrativas de metamorfose e a busca do eu, são ótimos exemplos de um público que pode vir a se identificar com o livro, e claro, aquelas pessoas que buscam explorar e entender como o luto funciona e o que ele pode transformar em nossas vidas.
3. O livro explora o luto e o abandono de formas muito físicas. A casa de campo, por exemplo, parece ter suas próprias memórias e sussurros. Em um mundo que muitas vezes exige que superemos as coisas rapidamente, por que você acha importante dar ao luto esse espaço insistente e quase fantasmagórico na literatura?
Porque eu acredito que o luto é como uma câmara escura, é só quando a gente entra nela, aceitando a dor, por vezes a culpa, que a realidade distorcida nos impõe, é que a imagem final (a nossa própria verdade e realidade) pode ser revelada e fixada, nos permitindo a paz.
4. A narrativa flerta constantemente com o surreal, especialmente através da figura do caracol, que se torna um guia para Elara. Como foi o processo para equilibrar a jornada psicológica da personagem com esses elementos fantásticos? Foi um desafio manter a “veracidade” emocional dela enquanto a própria realidade parecia se dissolver?
Tentei fazer com que os elementos fantásticos não fossem meros adornos, mas sim a linguagem e a estrutura através da qual o inconsciente e o luto de Elara se manifestam e se curam. Esse processo de equilíbrio aconteceu por meio de imagens-base que evoquei para falar da jornada psicológica de Elara: o caracol, que é um guia metafísico e tem uma simbologia muito poderosa de representação da transitoriedade da vida. A espiral, que representa o labirinto emocional da personagem. A própria paisagem da casa e do campo, que funcionam como peças para o “mistério” que ela tenta desvendar. E a identificação corporal, a qual é a questão da metamorfose, Elara está sempre com a sensação de estar se fundindo ao caracol e à vegetação que envolve o campo, isso representa a transformação da culpa, indignação e luto em aceitação e entendimento de si. Acho que o desafio em manter a veracidade emocional dela foi justamente tentar equilibrar esse aspecto surreal com as questões psicológicas que eu quis abordar, para isso procurei atrelar simbolicamente cada um desses aspectos a fatos que se revelavam na narrativa, então tudo que foi posto no texto, tem um porquê e uma razão de ser, cada planta citada, cada móvel ou cômodo da casa, cada número, cada cena, possuem uma conexão objetiva com os caminhos emocionais e psíquicos de Elara. Por isso, houve uma pesquisa profunda sobre simbologia de imagens, numeração e psicologia no processo de escrita.
5. O título, “Ela mesma como fantasma de si” , é incrivelmente evocativo e parece definir o estado da protagonista. Sem revelar os caminhos da trama, como você vê esse título capturando a essência da fragmentação de Elara e a forma como ela habita as próprias memórias e ausências?
O conceito de ser o “fantasma de si” resume a fragmentação psíquica e corporal de Elara, que se sente dividida entre a lógica e o surreal. Já a condição de “fantasma” é o resultado da fragmentação causada pelo trauma e pelo luto. Elara descreve sua consciência como um estado gasoso e seu corpo como um mapa incompleto na própria pele. O título explica que esse corpo que se fragmenta e se dissipa a cada sopro de vento não é o seu ser material, mas sim a sua forma espectral. A função do título, portanto, não é apenas ser poético, mas sim uma chave de leitura. A única maneira de Elara resolver a fragmentação de seu ser, o luto pela amiga e o trauma do abandono materno, é por meio dessa existência póstuma e espectral, que a obriga a seguir o caminho rumo à aceitação de si, do campo, e da sua eterna continuidade de ser.
6. Sua obra exige uma leitura mais lenta, introspectiva, que absorve a prosa poética. Como você vê o papel de livros como o seu no cenário literário atual, muitas vezes focado em narrativas de consumo mais rápido?
Acho que esse tipo de livro desempenha um papel de contraponto essencial e de reafirmação do valor literário da imersão. Em um cenário onde a velocidade e a clareza linear são frequentemente priorizadas para o consumo rápido, a história de Elara representa a defesa do caminho abstruso e não-linear. O leitor é convidado a explorar a própria sinestesia, por tanto há um trabalho quase coletivo, entre leitor-escritora-personagem-narrativa, de desvendar o texto. Particularmente, como leitora, esse é o tipo de texto que mais me arrebata, então como escritora procuro produzir aquilo que, primeiramente, me agradaria como leitora. Acho que existe nessa discussão, também, o resgate da literatura como experiência sensorial profunda, para além do entretenimento imediato. Em resumo, eu diria que é um livro para se refletir e sentir, ainda que essa afirmação possa soar clichê, e sobretudo, para tirar as próprias conclusões acerca das temáticas propostas.
Informações
Este texto é original e foi escrito especialmente para esta publicação
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