Apresentação
Um ensaio sobre o documentário O Som entre Nós: Criolo, Amaro e Dino.
O Rap Rapsódia de “Criolo, Amaro e Dino”
O álbum “Criolo, Amaro e Dino”, lançado em 15 de janeiro de 2026, possui 12 faixas com músicas que misturam rap, jazz e soul, mas estão no intermédio do cruzamento de ritmos do Atlântico, com a presença do cantor e compositor português (de ascendência cabo-verdiana) Dino D´Santiago. As faixas têm participações de artistas diversos, integrando vários estilos da música afro-brasileira e africana, o álbum é composto de 1. E se livros fossem líquidos (Poeta fora da lei Pt II) 2. Você não me quis 3. Menina do coco de Carité – feat As Clarianas e Maciel Salú 4. Seka 5. No vento de nós 6. Ela é foda 7. Mama Afrika 8. Anoitecer 9. Fogo lento 10. Passaredo – Interlúdio 11. Amazônia (A-i’ahu) 12. Hoje eu vi você. E se os Livros Fossem Líquidos possui uma pegada soul e jazzística, com uma introdução instrumental, enriquecida com um coro, em que o lírico nasce do chão da cultura popular para nascer do sonho dos esquecidos, como uma flor de lótus emerge da lama, colírio para os olhos que veem e não enxergam. Colírio de palavras e ritmos na liquidez do rap jazzístico de poetas fora da lei. A faixa abre o álbum idealizado por Criolo.
Kleber Cavalcante Gomes, nome artístico Criolo, é um cantor, rapper, compositor e ator brasileiro, filho de migrantes do Ceará para a Zona Sul de São Paulo onde nasceu, começou a escrever rap aos 11 anos de idade e a participar de disputas de rap em 1989. Em 2004 começou a publicar gravações caseiras de suas músicas em sua página no Myspace. Em 2006, lançou seu 1° álbum de estúdio, intitulado Ainda Há Tempo, em seguida, Nó na Orelha (2011), Convoque Seu Buda (2014), Espiral de Ilusão (2017) dedicado ao samba, Sobre Viver (2022) e o lançamento colaborativo Criolo, Amaro e Dino (2026). Neste, realizou grandes parcerias e tornou a sua criação um rap rapsódia, com a participação de Amaro Freitas, Dino D´Santiago, e os convidados Clarianas e Maciel Salú, Diego Estevam.
Amaro Freitas é um dos maiores instrumentistas do mundo, crescido na periferia de Recife-PE, é um pianista ícone internacional do jazz, com os álbuns Sangue Negro (2016) e Rasif (2018), Sankofa (2021) e Y’Y (2024), todos inspirados na cultura afro-brasileira, em especial, nos ritmos nordestinos, nas texturas urbanas e regionais dos arrecifes de Pernambuco e nas histórias e personagens do Brasil negro. Dino D’Santiago, Claudino de Jesus Borges Pereira, nasceu em 13 de dezembro de 1982, no Algarve. Filho de pais cabo-verdianos, cedo envolveu-se nos movimentos de música urbana globalizada, fundindo os universos da soul, hip-hop com o Batuku e Funaná, seus principais discos de estúdio são Eu e os Meus (2008), Eva (2013), Mundu Nôbu (2018), Kriola (2020), BADIU (2021), e em 2025 publicou seu primeiro livro, Cicatrizes.
Diego Estevam é natural de São Caetano do Sul e criado no Jardim Zaira, em Mauá, seu álbum de estreia, lançado em 2024, funde hip-hop e jazz com elementos originariamente negros, Lúcido (2024) e Caminhos Abertos (2026) são os seus dois álbuns solos e consolidam o conceito de Jazz Periférico. Maciel Salú segue a tradição da cultura popular pernambucana e nordestina, tocador de rabeca, o artista pertence à família Salustiano, integram sua discografia: A pisada é assim (2003), Na luz do carbureto (2007), Mundo (2010), Baile de Rabeca (2016) e Liberdade (2018), Ogum (2023) e Baile de Rabeca – Tudo É Amor (2025). Clarianas é um grupo de cantadeiras urbanas da Grande São Paulo, liderado pelas atrizes cantadeiras Naruna Costa, Naloana Lima e Martinha Soares, três mulheres negras/afro-ameríndias, que investigam a voz da mulher “ancestral” na música popular do Brasil. Clarianas, que já lançou dois álbuns, Girandêra (2012) e Quebra Quebranto (2019, possui um single: GARIMPO YANOMAMI, com a liderança indígena Ehuana Yaira Yanomami, e tem inúmeras parcerias com grandes nomes como Criolo, Barbatuques, Chico Cesar, Virginia Rosa, dentre outros.
O artista plástico realizador da capa do álbum é Vik Muniz, brasileiro radicado nos Estados Unidos. É conhecido por usar materiais inusitados em suas obras como açúcar e chocolate, catchup, gel para cabelo, lixo etc. Vicente José de Oliveira Muniz nasceu em São Paulo, no dia 20 de dezembro de 1961, filho de pais pernambucanos é, portanto, um emigrante do território nacional ao internacional. Formou-se em Publicidade na Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, em São Paulo. Em 1983 mudou-se para os Estados Unidos. Viveu em Chicago e depois em Nova Iorque, onde abriu um ateliê. Além da pintura, o artista também produz esculturas.
O Som Entre Nós | Criolo, Amaro & Dino | Documentário Completo, extensão do álbum, inicia com os versos “hoje eu vim realizar todo sonho dos meus ancestrais e deixar para trás todo pesadelo que os desfez”, na voz de Dino D´Santiago. Seu nome artístico revela sua identidade “badiu”, como são conhecidos os cabo-verdianos descentes diretos de escravizados na Ilha de Santiago. Cabo Verde possui a peculiaridade de ter sido povoado por europeus e africanos simultaneamente, com o domínio dos portugueses que realizaram o tráfico de escravos durante quatro séculos. Mais do que artístico, Dino D´Santiago adquire um nome de guerra, pois, ao passo que badiu designa a resistência dos povos escravizados da Ilha, suas canções, em crioulo e/ou em português, evocam a cultura de Cabo Verde em âmbito global. Assim como os escravizados migraram para Europa, América e África como mercadorias, a música de Dino reverbera por todo o mundo, principalmente, Europa e Brasil, um capital simbólico que ecoa por todos os cantos, em ritmo e poesia. “O poeta e o cantor falam por um ritmo próprio. Amalgamando canto e palavra eles dialogam com e por sua tribo – em tempos eletrônicos ou não. E mais, conversam também com seus ancestrais, aqueles que antes deles possibilitaram sua linguagem e existência” (Sant´Anna, 2001, p. 21), assim dialogam Dino, Amaro e Criolo, e todo um coletivo nessa rapsódia musical documentada no “som entre nós”.
A voz de Criolo confere vida ao rap no álbum, através do seu depoimento, congregam-se natureza e humanidade para nascer o protesto sobre a destruição da Amazônia, contra o capitalismo cosmopolita que, desenfreadamente, atropela o movimento natural da vida, o canto dos pássaros, o ruído das folhas ao vento e se confundem com as buzinas do carros que atravessam o asfalto. Muito cuidado, bico calado, o homem vem aí! E entra o som do jazz, do soul, dos instrumentos musicais dando dissonância ao ritmo veloz da vida cotidiana. O consumo da classe média sobre a música da quebrada seria digestão ou dispepsia? Ou distopia? O piano de Amaro penetra todos os espaços com sua sensibilidade e Dino D´Santiago canta quase à capela, quase falado, Le Petit Pays, de Cesária Évora. Catarse! A alma se purifica das dores do passado e se eleva para além dos porões da periferia. Morna, Funaná, Batuku, ritmos cabo-verdianos ao encontro de outras culturas pela voz de Dino D´Santiago, que, “de longe com passos curtos a carregar o peso dos muros que a vida íntima” transforma em “fogo lento” a incendiar o mundo ocidental, desconstruindo a sua universalidade, tangencia outros “pedaços de pele escritos no papel”. A vida é um beat e nele se produz a arte do encontro entre Criolo, Amaro, Dino, Diego Estevam, Maciel Salú, Clarianas, resultando num trabalho perifericamente grandão, assim afirma a faixa: “Você não me quis”.
Informações
Este texto é original e foi publicado primeiramente no litera mondru.
Fontes:
https://genius.com/Amaro-freitas-and-dino-dsantiago-fogo-lento-lyrics
https://espacoclario.blogspot.com/p/clarianas.html
https://revistaogrito.com/maciel-salu-divulga-a-cultura-popular-pernambucana-e-nordestina-para-a-europa-em-turne/
https://www.ebiografia.com/vik_muniz/
https://open.spotify.com/intl-pt/album/0YYt1g6W0EdqWoUrB86yuc
https://www.youtube.com/watch?v=CPGV2a3UaDE
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